sábado, 21 de Novembro de 2009

Crónicas do Falso Messias: Converter

Hás uns tempos atrás, o falso messias tinha a sensação de sempre que abria a boca, alguém puxava o autoclismo. Por isso, a sua auto-estima enfraquecia e os seus ensinamentos não eram seguidos, até que um dia conheceu uma rapariga, que hoje é sua namorada. Não voltou a pensar em reservatórios.
Tiago Gameiro

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

No signal


Mil megafones não chegariam para te gritar o meu coração. Tu tapaste os ouvidos, arrancaste os tímpanos, cobriste essa alma com os lençóis brancos com que se tapam os mortos daquela forma tão romantizada e fria que no fundo significa mais "descansa em paz" que "viverás para sempre". E agora? Queres que pensem que morreste? Ou queres primeiro a autópsia?


Será a minha capacidade de comunicar que está cada vez mais abalada? Serei eu o surdo? Que nos sirva a linguagem gestual então, diriam peritos, amen, mas eu não te percebo os gestos e tu abraças os meus e acaricia-los para depois os contrariares e anulares com aquele toque só teu, aquela maneira que dói tanto. Próxima opção? Escrever no papel? Possível, embora onde vives já não se entreguem cartas. Além disso, como não camuflar as palavras, como fazer duma caneta uma boca, como fazer do papel minha voz e como tornar a tinta no sangue que bombeia pelos esquemas labirínticos da alma?


Seja.

Lenço branco ao vento. Mão a acenar na distância. Costas de um vulto que se afasta (olhando para trás, porra, como quem sabe que havia muito mais a ser dito e feito, não olhes, vai, desaparece). E ficamos assim. Estes gestos entendes?


Somos as cenas cortadas de um filme chocantemente aborrecido que já ninguém vê, e que quem viu diz que poderia não ter sido tão mau. Caem as audiências na tua vida - e, está claro, na minha - e Deus apaga a televisão para se ir deitar. Faz-se tarde.
Pedro Antunes

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

Calada




Jurar um dia de silêncio pelas mensagens não percebidas. Comunicar a todo o instante que estamos vivos e ninguém se conforma com isso. Praticar o código morse nas pestanas, mentir a sorrir com todos os dentes que se tem. Brincar às palavras sentidas. Cruzar os braços, as pernas e os ouvidos, para que ninguém, nunca, consiga magoar-nos a sério. Colocar ansiedade no lugar da língua e cuspir os medos, os pesadelos e nunca as palavras que morrem por elas, no vento que as deseja como ninguém. Como eu as odeio. Como eu as matava, se pudesse, só para que alguém me entendesse a mensagem, o silêncio. A noite e o preto.


(imagem do filme O escafandro e a Borboleta)



Cláudia Alves

Meine Damen und Herren

O que eu tenho a comunicar é muito simples. O melhor da vida são a família e os amigos. E eu gostava de poder conservar todos e que sejam muito velhinhos quando morrerem, e todos ainda meus.

Gostava de pedir desculpa a todos aqueles a quem já magoei, mesmo aos que mereciam, porque é sempre bonito e hipócrita pedir desculpa nessas alturas também. Mas a noite hoje é de pensamento e sentimento positivo, portanto resta-nos o silêncio e ficarmos vidrados na relação que nunca deverá finar...

Na verdade, quereria sempre poder fazer o melhor pelos meus amigos que merecem e querem que faça o melhor por eles, fazendo o melhor por mim. Da família não falo hoje, apesar de ser o melhor da vida também, mas esses aturam-me por contracto, temos pena.

Eu gostava era de transformar esta motivação toda em algo concreto, mas quem antigamente sonhava comigo, já hoje o faz de forma diferente, já não me visita durante noites de grande êxtase onde se brinca com fogo de artifício. Ah, e há que dizer que não sou suficientemente autónomo para sonhar a solo. Busco por ajuda em todos os cantos, mas por indisposição, indisponibilidade ou indiferença, ninguém me socorre. Há um tempo certo para tudo...

Eu gostava era de ser venerado, um dia. Eu gostava de ver as caras das pessoas ao lerem isto. Pensando bem, já as conheço todas, não somos assim tão grandes, nem pouco mais ou menos. Nem nada em que meto a mão (deus perde a virtude). Eu gostaria de ter comentários a dizer: 'percebi onde queres chegar com o comunicado'. Se houver alguém assim, que me esclareça por favor, pois eu... eu não entendi. Ah.

Meine Damen und Herren, fickt euch =).



Eduardo Rilhas

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

comunicado

Engraçado calhar neste tema...

Venho desta forma comunicar vos, com muita pena minha que, vou deixar o blogue. Infelizmente o trabalho da faculdade e os horarios a cumprir nao me permitem continuar. Peço desculpas aos restantes membros do blogue e aos visitantes. Contudo vou ainda tentar fazer o ultimo post destes cinco temas.


Para os interessados (se houver) estarei aqui:
http://www.gameirostudio.blogspot.com/



por Gonçalo Gameiro

domingo, 15 de Novembro de 2009

E porque repressão também é proibição...


(Prague)



Čau! =)

sábado, 14 de Novembro de 2009

Crónicas do Falso Messias: Relações

(continuação de:http://blogdeummadman.blogspot.com/2009/07/cronicas-de-um-falso-messias-ep1.html)


O falso messias ainda anda na escola, mas as suas presenças são raras e especiais. Devido à sua missão, anda desligado dessa instituição, não respeitando horários e avaliações, entre outras coisas. Por isso, todo o santo dia, a sua mãe esmaga-lhe o juízo, com reprimendas do mais banal e vulgar, que qualquer pessoa ouviu na sua adolescência. Enquanto os adjectivos são cuspidos da boca da mãe, tais como irresponsável e despreocupado com pontualidade e assiduidade, ele remete-se ao seu canto silencioso, pois a figura da sua mãe é uma autoridade implícita . Conquanto a sua mente questiona-se, Jesus também aturava sua mãe?

Mas hoje, não quer saber. A sua namorada terminou o curso, só isso interessa.


Tiago Gameiro

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

Don't


Ao andar pela rua, sinto que não ando e que é a rua que anda à minha volta. É como se vivesse num tapete rolante, e houvessem fios enrolados à volta dos pulsos e dos tornozelos, fios controlados por alguém que, pobre coitado(a), não arranjou mais nada que fazer nesta vida chuvosa e aborrecida. E então, eu que pense que ando e que me movo, que vou rezar às igrejas que eu quero e que entro nos espaços que eu gosto, parando de vez em quando para chorar (porque, no fundo, sinto os fios a apertar, e simplesmente não me apetece acreditar que os há) num jardim que eu escolhi. Mas não escolhi nada - pensamento mórbido, para não dizer fatal -,é a camuflagem que me guia, sou camaleão para que alguém me queira em cima do seu ramo. Olhem para mim. Sou aquilo que quiserem, mato-me todos os dias e ninguém diria, ninguém diria.


Palavras que tantas vezes não abraçam aquilo que quero dizer, apressando-se a camuflá-lo com metáforas, perífrases, eufemismos ou silêncios, e a ideia, o sentir, o pensar, o querer, ficam cá dentro. Eu fico cá dentro. Porta fechada, do not disturb. Deprimido? Não, caro amigo, reprimido. Se eu for para onde quero, não vou por aí. Se eu disser o que penso, sou assassinado. Se eu me deixar levar, é o abismo que me leva e engole. Por isso, reprimido, sim, mas vivo e são, sem dever o que quer que seja a quem quer que seja, com a vida escrita numa lista de coisas-a-fazer, sem me fazer lutar nem pensar muito em coisas-que-não-são-para-fazer. E é isto. Reprimido, mas vivo. Cá estamos, não é verdade? Eu queria dizer mais, mas não me deixam porque já cansa.


Pedro Antunes

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Livre



Sei lá. Quer-me parecer que os pensamentos já não são meus, nem as conversas, nem as gargalhadas histéricas com que me sirvo, nem tudo, nem nada. Que os lugares ocupados estão demasiado vazios e os vazios, demasiado quentes. Que volta tudo de lá do fundo, me bate na cabeça e volta para a prateleira, sem que eu peça nada - dores de cabeça. Cefaleias, mesmo, ordenadas por outrém.
Na mesa do fundo do bar mais claro do sítio, eu escrevo que
No fim é sempre isto, esta sensação de nunca cá ter estado, de nunca ter achado uma percentagem considerável de mim, por aqui. Esta falta de palavras são silêncio a menos, paz a menos e muito menos do que alguma vez desejei. Nunca fui eu por três anos seguidos, vivo num vaivém, marco as desculpas - quantas mais, melhor - como se elas tivessem sido as impostoras de uma vida, fossem elas as viventes e eu, nunca, a sonâmbula. Então, dá-se o fim, então não me encontro, não agora, em encanto algum deste espaço de três anos.
O Guerreiro, Justo e Brilhante, mendiga-me o sangue para o pequeno-almoço. Azar o dele; eu hoje acordei viva.
.
E mal posso esperar pelo caminho de fora da janela.


Cláudia Alves

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

.88








by Gonçalo Gameiro