quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Cicatriz


Ele já caminhou por estradas e vales, umas vezes sozinho, outras acompanhado, e já escapou à morte por várias vezes, uma mão lavando a outra e sujando a de alguém que o mereça. Curiosamente, quando a morte vinha, era enviada por quem dizia que o acompanhava - qual não foi o seu espanto ao contar as cicatrizes nas costas, umas que se lembrava de onde vinham, outras que podia jurar que não tinha no dia anterior, e ainda umas que gostava de coçar em noites frias e nem sabia que eram cicatrizes - mensagens de alguém, algo, um Deus maior talvez, ou um tal de Destino, ou mesmo a simples e doce estupidez que é condição humana de quem tem alma, que lhe haviam chagado as costas. Lembretes de uma vida que passa, subtil e a correr, avisos de quem se farta de avisar.


Por isso, ele partiu outra vez, desta feita sozinho e bem acompanhado. E não venham dizer que foi engolido pelo egoísmo, que só pensava nele, que precisava, tinha de ter alguém, que a união faz a força. Porque a Morte nunca mais o visitou. E quando voltar, não será a traição encapuçada cuja silhueta jaz nas suas costas, formada por todas as cicatrizes, como um símbolo de culto além-vida. Será uma mulher de branco, cabelos negros, sorriso reconfortante e mãos macias que se unirão às suas enquanto as nuvens sussuram "És livre e estás limpo".


E o céu era o limite.
Pedro Antunes

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Errare



A verdade mais básica na nossa vida: somos demasiado imperfeitos e minúsculos para não nos atrevermos a perdoar.

Cláudia Alves
(imagem encontrada em adeusdoporto.blogspot.com/2008/09/imperfeito.html)

Mensagem

NEVOEIRO
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
define com perfil e ser
este fulgor baço da terra
que é Portugal a entristecer –
brilho sem luz e sem arder,
como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quere.
Ninguém conhece que alma tem,
nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ância distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!



Fernando Pessoa

em

Mensagem

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

mensagem

domingo, 1 de Novembro de 2009

Phobic Claustrum

Roxy Club @ Cabanas










I'm claustrophobic. I'm not an extreme case, because I can do, although I don't like, things that extreme claustrophic sufferers can't.

But whatever... The last attack I had was on a party, with a lot of persons dancing in the same way, blinking lights and a lot of smoke, it was really awful, I felt like I was tied up, and all I wanted was to rip out the rope that I was tying my neck. Really awful experience...

This picture wasn't taken on that specific party, but all discos mean the same to me. So...bah.

Marta Jacinto

sábado, 31 de Outubro de 2009

Dentro


Peço desculpa pela qualidade dos 3D mas não tive tempo para acabar. Dia 10 ou depois devo disponibilizar os paineis no meu blog. Este projecto é um tapume para restauração de uma estátua, na praça do Areeiro. O espaço que pretendo mostrar insere-se no percurso público que crio exteriormente ao tapume e que cria uma praça virada para a Av. Marechal Gomes da Costa e daí arranca um percurso em volta da estátua virando-se para a zona do aeroporto.

Tiago Gameiro

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

A Doença


Queria que fosses meu confessionário, por agora. Sei que não ouves, não vês, não lês nem escreves, embora sintas. E o que sentes é a vontade de ouvir o que te pode ensurdecer, ver o que te podia tornar pedra, ler a descrição do teu desejo escrita por minha mão, escrever com liberdade aquilo que me farias se não tivesses as mãos atadas e o coração envolto em arame farpado. Não ouves, eu sei e respeito. Mas então, por agora, sente.


Eu estou fechado. Vendado. Atado. Tenho uma meia vermelha na boca e uma corda na garganta. Por ti. Quero gritar sem som como consegui tantas vezes antes, mas tu és diferente. Contigo, tenho a certeza que gritaria bem alto, destruiria os pulmões, quiçá morreria. Porque a sensação é horrível. Querer tocar, mas não conseguir tocar em mais ninguém senão a ti, e não te poder tocar. As mãos estão suadas, e eu esfrego-as, e esfrego-as, e firo-as. Querer gostar de outra pessoa que não tu, mas só gostar de ti, e não poder gostar de ti. A alma ciranda pelos cantos da mente, às cabeçadas na parede.


Nos meus sonhos, vive um pássaro com o piar mais lindo do mundo, com as asas fortes e resistentes, o suficiente para, pelo menos, chegar a casa. Mas está engaiolado. E não canta. E não voa. E, ao lado, sento-me eu, numa cadeira de baloiço que já abriu buracos no chão de tanto baloiçar. E fixo o pássaro, fico com os olhos embaciados, cheios de água e sangue, e decido levantar-me para o libertar. Não consigo. Olho para baixo. Tenho uma lança no peito, que me trespassa o coração e sai pelas costas da cadeira. E agora? Como saio?


Quero que abras a tua gaiola, a tua boca, e especialmente os teus lábios. Quero que me trespasses, desde que depois me retires a lança do peito. Quero que abras as portas e arejes a mente. Eu estou á tua espera para fazer o mesmo deste lado. Sei que consegues. Afinal, quanto tempo mais vamos fechar-nos longe um do outro, se o jardim lá fora é nosso, e ambos sofremos de um caso raro de claustrofobia?



Pedro Antunes


"A nightingale in a golden cage
That's me locked inside reality's maze

Come someone make my heavy heart light
Come undone bring me back to life"

(Nightwish - The Escapist)

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Quarto escuro


Ele diz, de si para si, durante toda a sua espera da velhice:

Não há ar que me chegue, sou um bicho feio e mau, vou cair a qualquer momento. Tenho sede, fome e sono e nem isso me faz sentir mais vivo. Peço esmola de afectos num mundo sem desenho ou ideia do que tal seja. Os meus olhos estão abertos mas sufocam, não têm ar que lhes chegue. Tenho veias que não se acusam e facas de barrar manteiga. Escorre-me a vida vertiginosa, que nem para mim olha, que não mostra sequer sinal de querer saber o que eu penso dela ou de mim.


Já velho, ele diz: Tire-me o cinto e os atacadores, Sr. guarda, que isto assim é demais e de menos para um homem só. E já agora as lâmpadas, que tenho encontro marcado com o papão.
Não há cura para gente tão diferente, isso sim.


.
Cláudia Alves




terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Claustrofóbica Liberdade

Excerto dos rascunhos para uma música dos Underworld Masters:

Claustrofóbico, vagueio pelas ruas de Colónia
e após o futebol permeio pelo meio desta Amazónia...
Não me dirijo a ninguém, não é minha esta euforia
mas na multidão há ali alguém... que parece que já me conhecia...



e está na hora de actuar,
há muito a ser feito,
está na hora de mudar
o facto de liberdade ser só um conceito...


Eduardo Rilhas

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Claustrofobia





Gonçalo Gameiro