
Havia um homem que visitava muitas casas. Passeava, sempre de um lado para o outro, sempre correndo para não perder um autocarro, um comboio, uma rua, uma calçada, um olhar. E enquanto corria, era feliz. Enquanto visitava, feliz era.
Numa das casas que o recebia, lia contos a doentes, ajudava-os a ver para além da escuridão do seu quarto à noite, para além do cheiro a morte nos lençóis. Exorcizava-os para fora de si mesmos e mantinha as coisas-más à distância, deixando-lhes uma parte dele quando saía pela porta. Essa parte dele que lá ficava era o milagre que eles esperavam, a cada pequeno estalo do ponteiro do relógio na cabeceira.
Noutra casa, ensinava crianças a receita para dar sabor à vida. Cobria-os de cores e sons, de vistas e presenças, de sorrisos e de lágrimas. E eles sorriam muito quando ele deixava uma parte sua após ir embora.
Havia ainda uma outra casa (aliás, haviam muitas outras) na qual ele falava de amor e de sonhos, era ouvinte e falante, sentava-se com quem lá estivesse e deixava as palavras fluir como água de nascente da sua boca para fora, palavras estas que eram sempre diferentes, pedaços dele que também lá ficavam.
Este homem ia, ia, ia, e raramente vinha. Era parte de mil lares diferentes, que já não passavam sem ele. E quando voltava, não sobrava nada para o seu próprio lar, pois os seus pedaços estavam espalhados pelo mundo, cristalizados em lágrimas de alegria. E o seu lar gritava, zumbia aos seus ouvidos, exigindo, morrendo por um pedaço, um pedacinho dele. E ele, sugado, sem nada para dar, encolhia-se numa cama qual criança amedrontada em posição fetal, à espera que tudo passasse e que amanha fosse outro dia.
Cansado, vazio, acabava por adormecer, ao som de pensamentos que palpitavam em si, como se uma goteira do tecto pingasse directamente sobre os seus pés
"Tantas casas que me pertencem, e nem um lar que me acolha"
"Tantas casas que me pertencem, e nem um lar que me acolha."
"..."
Pedro Antunes